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Impressões sobre “Os sofrimentos do jovem Werther”

Um jovem que se mata por amor não-consumado com sua amada.
Esse plot parece clichê? Um dia ele foi inovador. E essa inovação nasceu com o livro que trouxe o nascimento do próprio Romantismo na literatura: “Os sofrimentos do jovem Werther”.

Eu poderia escrever aqui sobre como o Werther é o pior caso de friendzone da história da humanidade (não, não é o Snape…), como ele deve ter sido a inspiração do movimento emo, o quanto é patético que uma pessoa se suicide por um amor não-correspondido… mas eu vou me limitar a falar sobre a posição de cada lado da história.

Ponho-me no lugar de Alberto. Deve ter sido complicado conviver por mais de um ano com um rapaz que ele sabia que amava a sua noiva (depois esposa). Ele tentou ser gentil o quanto pôde, até o sentimento de Werther ficar tão claro que passou tudo a ser constrangedor. Ainda assim, ele tentou lidar com tudo muito dignamente, e bem que conseguiu, embora a frieza tenha tomado conta dele com o passar do tempo (e quem conseguiria fugir a ela nessa situação?).

Ponho-me no lugar de Carlota. Um amigo tão querido, com tantas coisas em comum, mas que é um garoto chorão. Sim, porque Werther, no fim das contas, não passa de um adolescente chorão. Daqui a pouco eu falo mais sobre ele, mas no olhar de Carlota, como amar um homem – como homem e não como amigo – que não passava o mínimo de segurança e estabilidade? Sim, ele podia ser sensível, culto, amoroso e dedicado, mas aparentemente ele era tudo isso… demais. Ele parecia um turbilhão ambulante de emoções, e ter que conviver e dividir a cama com isso seria, no mínimo, complicado. Cada impaciência ou resposta atravessada dela viraria uma baforada do inferno pra ele. Não dava, por mais que, no fundo, ela o amasse e o quisesse pra si. Fora que a responsabilidade de carregar nas costas a (in)felicidade e plenitude de outra pessoa é desumanamente pesada. Não é justo fazer isso com ninguém. Ao mesmo tempo, ela lentamente e sutilmente alimentava o desejo dele, talvez até por essa necessidade humana e mesquinha que temos de atenção, coisa que ele lhe dava de muito bom grado e felicidade.

Por fim, ponho-me no lugar de Werther. As palavras que vieram à minha mente depois de terminar o livro eram “coitado”, “pobre Werther” e assim por diante. Porque é isso que ele é: um coitado. Um cara que entrou de cabeça numa paixão que ele sabia ser impossível, mas que ainda assim a viveu, alimentou e, por fim, deixou-se por ela ser consumido. Ele estragou – em termos – a vida de Carlota, a vida de Alberto, a vida dos dois como casal e a vida dele mesmo. Por fim, acabou sem nada. Pobre Werther, pobre Werther. Mas quem nunca alimentou um sentimento que sabia ser inconveniente? Que sabia que não seria correspondido? Que sabia que o faria sofrer? Acho que todos em alguma medida. Porque por mais sofrimento que esse sentimento nos traga, ele também nos ajuda a nos sentirmos vivos. O irônico é que esse sentimento que trazia o sentimento de estar vivo para Werther, que queimava e ardia dentro dele, acabou queimando tudo tanto dentro quanto fora dele.

É difícil hoje lermos Werther sem um olhar puramente de pena, pra não dizer o mínimo. É possível que vários leitores riam da história, que se cansem, que percam a paciência. Mas é como o própri Werther diz (não exatamente nessas palavras): Deus te livre de rir de algo assim! Pois se a nossa sensibilidade pós-moderna não nos permite enxergar a dor e a ternura dessa história, é puramente porque ela está embotada por uma visão de mundo que parte do princípio de que pessoas são objetos descartáveis, bem como sentimentos.

Quem nunca molhou o travesseiro e em algum momento sentiu que quase morreria por amor, que atire a primeira pedra.